Existem 2 vias de parto. O parto normal (vaginal) e a cesariana (cirúrgico). 

Uma dúvida muito comum quando se fala em parto normal é a diferença entre o normal e natural. Vamos lá. Ambos são partos vaginais.

A diferença é que o parto natural como o nome sugere, acontece de forma totalmente natural, ou seja, sem nenhum tipo de intervenção médica como anestesia, hormônios para acelerar as contrações, nem muito menos a episiotomia (corte na região do períneo para ampliar o canal de parto) que hoje é considerada como uma violência obstétrica.

Falamos sobre as vias de parto e não falamos sobre parto humanizado. Sabe por que? Porque parto humanizado é mais do que:

  • uma via de parto (cesárea/ normal)
  • um tipo de parto (caseiro/ hospitalar)
  • acontecimentos dentro do parto (parto na banheira/ com doula)

O parto humanizado é o novo modelo de assistência que é sustentado por 3 pilares:

  • protagonismo da mulher
  • atendimento por equipes transdisciplinares e horizontais
  • medicina baseada em evidências científicas

Quando uma mulher deseja um parto e um nascimento respeitoso, ela está desejando um parto humanizado.

Algumas pessoas perguntam porque não usar dos avanços da medicina como fazer uso da cesariana, da ocitocina para acelerar o parto normal ou fazer uso da analgesia para não sentir dor. E existem 2 pontos muito importantes aqui:

  1. Nosso corpo é preparado para parir, portanto ele tem seu próprio processo natural e fazer o uso indiscriminado de intervenções pode atrapalhar esse processo e demandar outras intervenções. Uma intervenção puxa a outra. 
  2. Muitas intervenções não possuem evidências científicas de que são benéficas e outras foram consideradas desfavoráveis (falamos mais disso no tópico: recomendações da OMS para o parto normal)

“A intervenção por si só, não é o terror. A analgesia não vai tirar a beleza da sua experiência! Ela está aí pra ajudar a lidar com a quantidade das sensações que o parto gera. Uma linha tênue entre superar seus próprios limites, e passar por cima dos limites que você não dá conta de lidar naquele momento e tornar uma experiência traumática.” Jéssica Scipioni

O que torna as intervenções negativas, é o uso indiscriminado delas. Sem necessidade, sem que a mulher tenha solicitado ou autorizado, sem ter base científica de que realmente tem benefícios e para simplesmente acelerar o processo. 

Existem diversos métodos não farmacológicos e naturais que contribuem para a evolução saudável do trabalho de parto. As intervenções médicas não precisam ser a primeira opção, em muitos casos não precisam nem existir e a Organização Mundial da Saúde nos ajuda a entender melhor estas questões.

A fim de reduzir intervenções médicas desnecessárias, e estabelecer padrões de atendimento a OMS criou as recomendações de boas práticas para o parto normal.

Todas as recomendações possuem embasamento científico, e o resultado se deve a um conjunto de pesquisas realizadas no mundo todo.

 

Recomendações da OMS para o parto normal

O Brasil é um dos países com as maiores taxas de cesáreas. Também está entre os primeiros no que diz respeito ao uso indiscriminado de intervenções que só seriam utilizados em situações de risco para a mãe ou o bebê. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que até 15% dos partos sejam cesarianas. No Brasil esse percentual chega a 57%. 

Vamos conferir algumas dessas recomendações sobre o parto normal?

  • É recomendado que a gestante possua um plano de parto individual, e que o mesmo seja comunicado ao seu companheiro, e se adequada, a sua família;
  • Monitoramento do bem-estar físico e emocional da mulher durante e após o trabalho de parto;
  • Apoio empático por parte da equipe e fornecimento de informações e explicações que a gestante desejar;
  • Respeitar as decisões da gestante sobre o local do parto;
  • Respeitar a privacidade da  mulher no local de parto;
  • Ofertar líquidos via oral durante o trabalho de parto;
  • Utilização de métodos não farmacológicos de alívio da dor durante o trabalho de parto;
  • Liberdade de posição e movimentação à gestante;
  • Administração de ocitocina profilática no terceiro estágio do trabalho de parto para as mulheres que correm o risco de terem uma hemorragia pós-parto;
  • Contato pele a pele entre mãe e bebê durante a primeira hora de vida e suporte a amamentação;

 

Sobre práticas desfavoráveis ou improdutivas com relação ao parto normal

Há também as recomendações acerca dos práticas que foram qualificadas como desfavoráveis ou improdutivas, como:

  • Administração de ocitócitos (ocitocina ou derivados) em qualquer momento antes do parto de um modo que não se consiga controlar seus efeitos;
  • A utilização rotineira de tricotomia (retirada dos pelos) e de enema (comumente conhecida como lavagem intestinal);
  • Utilização de infusão intravenosa de rotina;
  • Posição supina rotineira durante o trabalho de parto;
  • Estimular puxos prolongados e dirigidos durante a segunda fase do trabalho de parto;
  • Massagem e distensão do períneo durante a segunda fase do trabalho de parto;
  • Lavagem e revisão uterina rotineira após o parto;

 

Práticas que devem ser utilizadas com cautela durante o processo do parto normal

Algumas práticas não possuem evidências científicas suficientes e por isso aconselha-se que sejam utilizadas com cautela, são elas:

  • Rompimento da bolsa no primeiro estágio do trabalho de parto;
  • Clampeamento precoce do cordão umbilical;
  • Manipulação ativa no bebê no momento do parto;
  • Manobras relacionadas à proteção do períneo;
  • Uso rotineiro de ocitocina;

 

Durantes as pesquisas, observou-se que algumas práticas são utilizadas no parto normal de modo inadequado:

  • Restrição alimentar e hídrica da gestante;
  • Exames vaginais frequentes;
  • Controle da dor por agentes sistêmicos e analgesia peridural;
  • Monitoramento fetal eletrônico;
  • Uso rotineiro da episiotomia;

O objetivo dessas recomendações práticas para o parto normal, é diminuir a alarmante taxa de intervenções e cesáreas que são realizadas sem a real necessidade

 

Como acontece o parto normal?

O parto não acontece de uma hora pra outra, ele vai começando dia a dia a partir desse último trimestre de gestação. O parto normal é uma experiência visceral e o grande desafio do parto é desligar a racionalidade pois ela atrapalha a liberação de hormônios.

Fases do trabalho de parto:

  • Pródromos

Os pródromos são contrações de treinamento. Geralmente começam a acontecer no terceiro trimestre de gestação. Para algumas mulheres os pródromos são muito discretos podendo não ser percebidos, para outras mulheres podem ser mais intensos. Os sintomas são o enrijecimento da barriga, contrações curtas, algumas vezes doloridas, dores nas costas, e até a perda do tampão mucoso. Seu corpo não te manda os desconfortos a toa, tudo é uma preparação.

  • Fase latente

É a fase mais longa, começa no início da dilatação e vai até 6 cm. As contrações começam a ritmar e as cólicas começam a surgir. Seu corpo está trabalhando, essa é a hora de deixar o corpo fazer o que ele precisa. Tente desligar os pensamentos disso. Essa é uma fase pra você continuar a vida, descansar enquanto as contrações não são tão frequentes e tão intensas.

  • Fase ativa

Os profissionais consideram a fase ativa como início do trabalho de parto. Geralmente é o melhor momento para ir para a maternidade. Se até agora você tinha dúvidas, essa é a hora que você não tem dúvidas. O seu corpo te convoca por inteiro, você já não consegue mais conversar muito e colocar sua energia para fora. A energia está toda voltada para dentro de você, que é onde o bebê está! As contrações são ritmadas, mais intensas e mais frequentes. As contrações tem um intervalo de 3/4 minutos e duram entre 40 segundas e 1 minuto. Esse intervalo é o tempo de descansar, de respirar. 

  • Expulsivo

Reta final do trabalho de parto. O bebê vai nascer! A dilatação está completa ou quase, o canal está aberto, é só o bebê descer e nascer. Isso não significa que vai ser rápido ta? O expulsivo está diretamente relacionado aos puxos, aquela vontade incontrolável de fazer força.

  • Dequitação da placenta

O seu bebê nasceu e a placenta também precisa sair. A saída da placenta acontece mais ou menos da mesma forma que seu bebê, é o momento do trabalho de parto que as sensações ficam mais tranquilas, mas não passa tudo. Você vai sentir contrações bem leves para a placenta sair, contrações parecidas com as dores do começo. O ideal é esperar a placenta sair naturalmente, pode ser rápido ou levar 30/40 minutos

 

Benefícios do parto normal e indicações cesárea

O avanço da ciência nos trouxe muitas informações sobre as reais necessidades de intervenção em um trabalho de parto. Depois de anos de estudos e pesquisas, hoje as evidências científicas nos mostram que o parto normal é mais seguro e saudável para o binômio mãe-bebê. A cesariana é uma cirurgia maravilhosa e que salva vidas, desde que usada quando realmente necessária.

Vamos falar então sobre os benefícios do parto normal:

  1. O risco de morte materna e fetal é menor do que na cesariana. O parto é algo fisiológico e natural. Nós mulheres fomos biologicamente preparadas para parir. Em contrapartida, a cesariana é um procedimento cirúrgico e como qualquer procedimento como esse envolve riscos.

    Segundo o estudo “Morte materna no século 21”, publicado em 2008 no periódico American Journal of Obstetrics and Ginecology, que analisou 1,46 milhão de partos e encontrou um risco de óbito dez vezes maior para a gestante em cesarianas. Enquanto a taxa de morte em partos normais foi de 0,2 para 100 mil, no caso das cesáreas chegou a 2,2 por 100 mil. Deve-se levar em conta que, em parte dessas cesáreas, a situação já era emergencial e mais arriscada. (Fonte: Casa da Doula)

  2. O risco de infecções pós-parto também são menores nos casos de parto normal.
  3. A recuperação é mais rápida
  4. O bebê nascido de parto normal tem uma defesa imunológica maior do que aqueles nascidos por cesariana 
  5. Menor taxa de recém nascido com problemas respiratórios ou prematuros
  6. Vínculo entre mãe e bebê fortalecido

E quando a cesariana é necessária?

85% das gestações são de baixo risco e não precisam de intervenção.

São apenas 5 indicações absolutas para cesariana e apenas 1 fora do trabalho de parto (são casos raros e com pouca frequência):

  • Prolapso de cordão: quando o cordão umbilical sai antes do bebê – a cabeça do bebê pressiona  o cordão e interrompe o fluxo 
  • Descolamento prematuro de placenta (sangramento considerável)
  • Apresentação córmica ou transversa: quando o bebê está deitado – espera entrar em trabalho de parto, se o bebê não virar ai sim é indicação de cesariana
  • Placenta prévia completa – quando a placenta se insere bem na entrada do colo do útero, a placenta tampa a saída do bebê
  • Ruptura vasa previa, uma veia na região do útero que se rompe e acontece um grande sangramento
  • Herpes genital com lesão ativa no momento do parto

Nesses casos a gente agradece muito a existência dessa cirurgia. A cesariana em si como cirurgia é muito segura, só não é mais do que o parto normal. A cesariana faz parte e é muito necessária. Ela pode salvar vidas.

Indicações relativas:

  • Mecônio (quando o bebê faz cocô)
  • Pressão alta
  • Diabetes gestacional
  • Gestação gemelar
  • Bebê pélvico

Não é a cesariana que é vilã da história, mas como o sistema obstétrico usa a cesariana.

 

Dicas para quem quer um parto normal

Entendendo a realidade obstétrica

Para começar, é importante que a gente entenda a realidade obstétrica do nosso país e como chegamos até aqui. Antigamente, toda a assistência ao parto era feita por mulheres e seus conhecimentos eram compartilhados entre as gerações. O parto era um evento feminino e vivenciado dentro das famílias e casas.

Mudanças começam a acontecer no início do século XX com o objetivo de reduzir as taxas de mortalidade materno-infantil. Essas mudanças aconteciam baseadas em observações e em alguns estudos que começavam a ser elaborados naquele momento, assim foi sendo construído um novo modelo de assistência ao parto sustentado por três pilares principais: 

  1. o parto precisa ser limpo; 
  2. o parto precisa ser rápido; 
  3. o parto precisa ser controlado por uma instituição. 

Em um primeiro momento todas essas transformações foram recebidas positivamente pelas mulheres. Elas se sentiram mais seguras para viver a experiência do parto e houve uma diminuição considerável nas taxas de mortalidade. No entanto, com o passar dos anos as mulheres foram percebendo que não eram mais protagonistas do seu parto e que agora não passavam de um objeto da assistência. Um século se passou. As mortes diminuíram, mas a violência aumentou. Atualmente 1 em cada 4 mulheres sofre algum tipo de violência obstétrica.

Chegamos então na realidade do nosso país. O Brasil é um país que criou a cultura da cesariana, a cesárea surge e se fortalece como a salvação mágica para as mulheres se livrarem de um parto violento, sofrido e arriscado. Nós somos 2º segundo país com a maior taxa de cesarianas do mundo! 57% dos nascimentos são realizados por via cirúrgica. Um dos grandes motivos para o crescimento dessa cirurgia é o medo que as mulheres têm da assistência ao parto normal. A OMS considera que a taxa ideal de partos cesários seria em torno de 10 à 15% dos nascimentos. 

A partir da observação de todos esses movimentos e, mais uma vez, com o objetivo de diminuir as taxas de mortalidade materno-infantil inicia-se um movimento mundial de mudança da assistência obstétrica. No Brasil esse movimento tomou corpo e foi denominado de “Parto Humanizado”.

No nosso país para parir não basta querer.

A minoria das mulheres não conseguem o parto normal e não é porque o corpo delas é defeituoso, é porque o sistema quer que elas façam uma cesárea e nesse embate de desejos, o lado mais fraco acaba perdendo. É por isso que precisamos nos fortalecer e nos preparar para enfrentar o sistema. 

Mas, eu tenho uma boa notícia para te dar! 

Tem uma parte de toda essa experiência que está totalmente nas suas mãos, é responsabilidade sua e você tem total controle sobre ela. Para te ajudar a tomar as rédeas dessa parte que lhe cabe, eu vou compartilhar com você dicas para aumentar as suas chances de ter um parto normal.

Mas afinal, o que te impede de ter um parto normal? 

Não existe uma receita pronta, simplesmente porque o parto é um experiência que faz parte do real, é um momento único, inédito e sem repetição, nunca existiu e nunca existirá um parto igual ao outro, mas existem algumas variáveis que dizem respeito a você e que você pode mudar para viver essa experiência de forma plena.

Existem 3 “Ds” (método mnemônico criado pelo Obstetra Braulio Zorzella) que te impedem de ter um parto normal:

  • Desinformação
  • Dor (medo da dor)
  • Desconfiança no próprio corpo

Se você se sente perdida em todo esse processo e não sabe por onde começar, que bom que nos encontramos! Não existe um manual do parto perfeito. Sua experiência é única e bela exatamente do jeito que é! O meu objetivo com esse material é te dar autonomia sobre seu próprio corpo e sobre a sua experiência de parto e te mostrar um caminho possível e maravilhoso de respeito e amor.

Quais são os passos para aumentar as chances de você ter um parto normal?

  1. Informe-se

Informe-se sobre o sistema obstétrico, se possível sobre a equipe médica que irá te acompanhar e principalmente sobre a realidade da sua cidade. Conheça o seu corpo, as suas emoções e perceba como tudo que você é e tudo que você vive se manifesta no seu corpo e na forma como você sente. Quais são as suas crenças internas que te mantém refém do sistema? 

Saiba filtrar as informações que chegam até você. O melhor filtro é você e as suas sensações, a informação precisa te fortalecer, trazer segurança e tranquilidade… se você sente mais dúvidas, mais medo, mais insegurança, é hora de parar! Descarte!

Lembre-se: o parto acontecerá no seu corpo, essa é a experiência mais real da sua vida. Informe-se para se sentir segura e conseguir se entregar apenas para sentir o parto.

 

  1. Aprenda a lidar com a dor

É preciso que você permita que seu corpo experimente as sensações do parto. Temos a crença de que o parto é um evento extremamente doloroso e sofrido. Precisamos deixar isso de lado e aprender formas de lidar com as sensações. Eu digo sensações, pois nem tudo precisa ser interpretado como dor e sofrimento.

As sensações do parto são a expressão do corpo em sua máxima potência. Por ser uma experiência nova e única, nós não temos repertório para nomear e acabamos deixando tudo com o nome de “dor”. Se você dá o nome de dor o seu corpo reage como dor. E como nosso corpo reage diante da dor? Tentando fugir dela.

Entenda como trabalhar a favor do seu corpo. Esteja focada em seu corpo, concentre-se e respire! Foque na respiração.

 

  1. Confie na sabedoria do seu corpo

Tudo o que você precisa está em você! No seu corpo! 

Fizeram que com que a gente acreditasse que nosso corpo é defeituoso, e quando a gente descobre que isso não é verdade, somos capazes de transformar a nossa realidade.

Crie uma intimidade com o seu corpo, conheça e conecte-se com ele. Descubra aquilo que te traz conforto quando uma sensação nova aparece, ainda durante a gestação. 

Esse é o passo mais importante, que gera a transformação mais profunda e que só depende de você!! Faça aquilo que só você pode fazer por si mesma! E se precisar de ajuda, conte com a gente, você não está mais sozinha!

 Poderíamos ficar horas conversando sobre o parto normal. Ficou alguma dúvida? Chama a gente para bater um papo 🙂

 

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